"Dizem que uma pessoa nunca tem a percepção real da voz. Porque ecoa nos ossos da cabeça e tem a ver com o penteado, qualquer coisa assim. Um amigo meu por exemplo, no outro dia, foi entrevistado na rua para a televisão, e à noite quando foi a ver o telejornal descobriu que era gago. Hoje em dia os noticiários são mesmo uma bosta. Vai-se a querer ver uma reportagem sobre empreendedorismo e food trucks e essas coisas, e acaba-se a descobrir que se é gago.
Estive a explicar ao meu amigo isto da voz que nós ouvimos não é a voz que ele ouve. Ficou um bocado chocado e a mandar vir com toda a gente porque o deviam ter avisado há muito tempo. Agora fazia sentido porque é que nunca o deixaram ir ler na missa. Nenhum dos apóstolos era gago e isso podia baralhar muito as pessoas quando estavam a imaginar o discurso de São Paulo aos coríntios. Mas também não há maneira de saber se algum apóstolo era gago, não é uma coisa que venha à mão mencionar na bíblia: "o João era humilde, trabalhador e gago". É a bíblia, não é revista de fofoca.
Para deixar de ser gago ele disse que a partir de agora ia sempre falar a cantar. Dizem que os gagos a cantar não ficam gagos, mas não é bem assim porque ele chega à parte do refrão da 125 Azul e engasga-se na mesma. Mas também é só nessa. Por exemplo os parabéns a você já canta bem, até com aquela segunda estrofe do "tenha tudo do bom, do que a vida contém" e tudo!"
De um conhecido meu:
"Estava na fila para pagar do supermercado quando a minha mulher me diz para esperar só um bocadinho que vai buscar sacos para o lixo. Mas já era a minha vez de pagar. Agora vale tudo para fazer tempo na caixa enquanto ela não chega.
Deixei passar a senhora que estava atrás de mim, mas ela levou a mal por achar que eu a estava a chamar de velha e que tinha prioridade. Velha ou não, era esquisita na mesma porque no cesto só tinha uma garrafa de vinho e umas meias de vidro. Talvez fosse sair à noite, ou então ia beber para ganhar coragem e assaltar um banco.
Para atrasar, tentei encravar o tapete rolante com um pacote de filipinos mas aquilo como é redondo só roda e não engaixa. Se tivesse comprado oreo se calhar já dava porque toda a gente sabe que pelo menos aos dentes aquilo agarra tudo.
O tapete rolante dos supermercados parece aquele dos ginásios a que eu nunca vou. Triste é ver que a minha comida passa mais tempo numa passadeira rolante que eu. Até as alfaces, que nem sequer precisam. É mesmo para me esfregar na cara que faço pouco exercício físico.
Entretanto a mulher da caixa começou a pesar as frutas. Comecei logo a dizer números em voz alta para ela se baralhar enquanto digitava o código de barras e ter de começar do início. Mas esta técnica não funcionou muito bem porque em vez da mulher ter registado cinco maçãs registou cinco melões caros. Isto sem contar com o melão com que fiquei.
Já sem compras, para não parecer que estava a a entupir a fila peguei num pacote de halls e meti no tapete. Quando o halls percorreu aquele metro e meio até à caixa, voltei a meter outro. E depois outro. Ao fim do décimo nono pacote de halls limão a minha mulher apareceu e disse que não encontrou sacos do lixo.
Agora lá em casa meto o lixo num saco da Zara, mas ando com o hálito super fresco."
"Estava na fila para pagar do supermercado quando a minha mulher me diz para esperar só um bocadinho que vai buscar sacos para o lixo. Mas já era a minha vez de pagar. Agora vale tudo para fazer tempo na caixa enquanto ela não chega.
Deixei passar a senhora que estava atrás de mim, mas ela levou a mal por achar que eu a estava a chamar de velha e que tinha prioridade. Velha ou não, era esquisita na mesma porque no cesto só tinha uma garrafa de vinho e umas meias de vidro. Talvez fosse sair à noite, ou então ia beber para ganhar coragem e assaltar um banco.
Para atrasar, tentei encravar o tapete rolante com um pacote de filipinos mas aquilo como é redondo só roda e não engaixa. Se tivesse comprado oreo se calhar já dava porque toda a gente sabe que pelo menos aos dentes aquilo agarra tudo.
O tapete rolante dos supermercados parece aquele dos ginásios a que eu nunca vou. Triste é ver que a minha comida passa mais tempo numa passadeira rolante que eu. Até as alfaces, que nem sequer precisam. É mesmo para me esfregar na cara que faço pouco exercício físico.
Entretanto a mulher da caixa começou a pesar as frutas. Comecei logo a dizer números em voz alta para ela se baralhar enquanto digitava o código de barras e ter de começar do início. Mas esta técnica não funcionou muito bem porque em vez da mulher ter registado cinco maçãs registou cinco melões caros. Isto sem contar com o melão com que fiquei.
Já sem compras, para não parecer que estava a a entupir a fila peguei num pacote de halls e meti no tapete. Quando o halls percorreu aquele metro e meio até à caixa, voltei a meter outro. E depois outro. Ao fim do décimo nono pacote de halls limão a minha mulher apareceu e disse que não encontrou sacos do lixo.
Agora lá em casa meto o lixo num saco da Zara, mas ando com o hálito super fresco."
Há pessoas que pela preguiça de cozinhar jantam cereais. Se eu tivesse de jantar cereais, pegava na tigela e sentava-me a comer em frente à televisão a ver um programa de culinária. Tenho a certeza que os cereais me iriam saber muito melhor.
Dependendo do programa que estivesse a ver, os chocapic iam saber a borrego no forno, bacalhau à lagareiro, salada mista se quisesse uma coisa mais light.
Para ser ainda mais realista, aos pratos que fossem mais crocantes ou que tivessem batatas fritas eu juntava leite frio para os cereais estarem sempre estaladiços; aos pratos mais molinhos tipo migas ou açorda era só juntar leite quente. Não sei se conseguiria matar a fome com estes cereais, mas se quisesse repetir também era só puxar atrás na box.
O problema era se me apetecesse jantar bifinhos com cogumelos e natas, porque nos programas de culinária o Jamie Oliver nunca tem de cozinhar para jantares de grupo da malta da universidade.
Não posso garantir que isto dos cereais funcione, porque senão, nas recolhas do banco alimentar para além de pedirem arroz e azeite também aceitavam dvds do masterchef.
Dependendo do programa que estivesse a ver, os chocapic iam saber a borrego no forno, bacalhau à lagareiro, salada mista se quisesse uma coisa mais light.
Para ser ainda mais realista, aos pratos que fossem mais crocantes ou que tivessem batatas fritas eu juntava leite frio para os cereais estarem sempre estaladiços; aos pratos mais molinhos tipo migas ou açorda era só juntar leite quente. Não sei se conseguiria matar a fome com estes cereais, mas se quisesse repetir também era só puxar atrás na box.
O problema era se me apetecesse jantar bifinhos com cogumelos e natas, porque nos programas de culinária o Jamie Oliver nunca tem de cozinhar para jantares de grupo da malta da universidade.
Não posso garantir que isto dos cereais funcione, porque senão, nas recolhas do banco alimentar para além de pedirem arroz e azeite também aceitavam dvds do masterchef.
As frutas que vemos no super mercado são todas iguais. Têm de obedecer a padrões de tamanho, forma, cor, e as que não forem “perfeitas” vão para o lixo. Isto é um bocado o que o hitler fazia com as pessoas, e não deixa de ser inquietante que hoje ainda há um mini nazismo na zona de frutas do super mercado. “Ai este pêssego tem uma cor um bocadinho mais escura? Pimbas, acabou.” E se por ventura uma fruta for considerada exótica mas conseguir chegar ao mercado, metem-lhe um selozinho para estar identificada das demais. É fruta que vive o estigma dos judeus.
O maior problema destas frutas selecionadas é que nós acabamos por estar a comer uma maça que é igual há 10 anos. Provámos uma granny smith, provámos todas! Por isso é que ninguém diz “Epá tu lembras-te daquela maça que comemos há 6 anos em Estarreja? Que categoria!” Não dizem isto porque normalmente as pessoas gostam de recordar sabores mais elaborados tipo chanfana ou leitão da Mealhada, que não consigam encontrar em qualquer pingo doce do bairro.
Por tudo isto é que nem sequer faz sentido as pessoas ficarem no super mercado a escolher a fruta peça a peça. Alguém já escolheu por nós! Aquilo é tudo igual. É preciso até ser-se um bocadinho arrogante para achar que vamos conseguir encontrar defeitos onde os apanhadores de fruta, as máquinas industriais com raios laser, os técnicos de bata, e os repositores de super mercado não conseguiram encontrar.
O maior problema destas frutas selecionadas é que nós acabamos por estar a comer uma maça que é igual há 10 anos. Provámos uma granny smith, provámos todas! Por isso é que ninguém diz “Epá tu lembras-te daquela maça que comemos há 6 anos em Estarreja? Que categoria!” Não dizem isto porque normalmente as pessoas gostam de recordar sabores mais elaborados tipo chanfana ou leitão da Mealhada, que não consigam encontrar em qualquer pingo doce do bairro.
Por tudo isto é que nem sequer faz sentido as pessoas ficarem no super mercado a escolher a fruta peça a peça. Alguém já escolheu por nós! Aquilo é tudo igual. É preciso até ser-se um bocadinho arrogante para achar que vamos conseguir encontrar defeitos onde os apanhadores de fruta, as máquinas industriais com raios laser, os técnicos de bata, e os repositores de super mercado não conseguiram encontrar.
Toda a gente se derrete com animais bebés. São sempre caçadores de likes no instagram. Uma pessoa compra um cão, normalmente um beagle ou um bulldog francês já com a perspectiva de fazer criação porque foi caro, e durante o primeiro ano criam-lhe um perfil para nos obrigarem a gostar da página do Piruças. Aquele cão é um like magnet, uma foto dele a dormir costuma ter mais likes que o post daquele gajo a anunciar que foi pai.
Entretanto o cão cresce e perde a magia. As fotos são cada vez mais raras, uma pessoa começa a pensar que o cão morreu ou foi viver para a casa da avó porque a incontinência dele não combinava com os tacos de madeira da sala. Isto é o primeiro ano de vida de um cão.
Já a vida da pomba bebé é uma vida lixada. Nunca ninguém viu uma pomba bebé. Em princípio os animais bebés são mais fofos, mas nós odiamos tanto as pombas que nem sequer queremos saber como é que elas são em pequenitas. Podem até dar mais likes que o Piruças, mas ninguém quer saber.
As pessoas dizem que as pombas têm doenças, mas eu não conheço ninguém que tenha ficado gripado por passar numa praça com pombas. Nunca nenhum médico prescreve antibióticos e pede para ficarmos longe do Rossio, ou ir à volta.
A pomba é o único animal que é socialmente aceitável nós atropelarmos e nem sequer parar para ver o que se passa. Toda a gente fica mais preocupada com o estrago no carro do que com o estado da pomba. A vida das pombas é desprezada. Não têm lugar nem no jardim zoológico nem na loja de animais. Nem sequer atrás das grades, quanto muito é à frente das grades, de um jipe a 50 km/h.
Entretanto o cão cresce e perde a magia. As fotos são cada vez mais raras, uma pessoa começa a pensar que o cão morreu ou foi viver para a casa da avó porque a incontinência dele não combinava com os tacos de madeira da sala. Isto é o primeiro ano de vida de um cão.
Já a vida da pomba bebé é uma vida lixada. Nunca ninguém viu uma pomba bebé. Em princípio os animais bebés são mais fofos, mas nós odiamos tanto as pombas que nem sequer queremos saber como é que elas são em pequenitas. Podem até dar mais likes que o Piruças, mas ninguém quer saber.
As pessoas dizem que as pombas têm doenças, mas eu não conheço ninguém que tenha ficado gripado por passar numa praça com pombas. Nunca nenhum médico prescreve antibióticos e pede para ficarmos longe do Rossio, ou ir à volta.
A pomba é o único animal que é socialmente aceitável nós atropelarmos e nem sequer parar para ver o que se passa. Toda a gente fica mais preocupada com o estrago no carro do que com o estado da pomba. A vida das pombas é desprezada. Não têm lugar nem no jardim zoológico nem na loja de animais. Nem sequer atrás das grades, quanto muito é à frente das grades, de um jipe a 50 km/h.
Tatuagens
Quanto menos livros uma pessoa lê ao longo da vida, maior é a probabilidade de ter palavras tatuadas no corpo.
Por exemplo, quem nunca pegou num dicionário de latim, está mais perto de ter uma tatuagem a dizer carpe diem.
Acontece a mesma coisa com os símbolos. Quanto menos se leu o manual de matemática, ou a tabuada do Ratinho, maior a probabilidade de ter um símbolo de infinito tatuado no pulso.
O símbolo de infinito é muito popular entre as tatuagens. Muitas pessoas têm, embora nem gostem muito. É a estante billy das tatuagens.
É engraçado que das aulas de matemática só o símbolo de infinito pegou moda nas tatuagens. Nunca vemos tatuagens da fórmula resolvente ou do teorema de pitágoras. Isso sim, uma coisa útil, porque nunca sabemos quando temos de medir uma corda de rappell que sai de um prédio qualquer até ao chão. Bastava olhar para o braço lá com a hipotenusa tatuada e montava-se alto desporto radical com a corda num comprimento bom e com a segurança adequada. Podia era haver grande stress nas aulas porque a tatuagem podia ser considerada copianço. Depois vinha o professor obrigar o aluno a fazer os exames de casaco comprido e com várias camadas de roupa grossa para ele não poder olhar para os braços durante o exame. Mesmo que o exame fosse num dia de muito calor!
Deve ser frustrante para os tatuadores terem de fazer estas tatuagens com os símbolos de infinito. São capazes de desenhar umas capelas sistinas nas costas de alguém e desviar o desenho dos sinais, mas acabam o dia a tatuar um 8 deitado num pulso. É como se um samurai que domine a espada tivesse de ganhar a vida a cortar picanha fininha num rodízio.
Por exemplo, quem nunca pegou num dicionário de latim, está mais perto de ter uma tatuagem a dizer carpe diem.
Acontece a mesma coisa com os símbolos. Quanto menos se leu o manual de matemática, ou a tabuada do Ratinho, maior a probabilidade de ter um símbolo de infinito tatuado no pulso.
O símbolo de infinito é muito popular entre as tatuagens. Muitas pessoas têm, embora nem gostem muito. É a estante billy das tatuagens.
É engraçado que das aulas de matemática só o símbolo de infinito pegou moda nas tatuagens. Nunca vemos tatuagens da fórmula resolvente ou do teorema de pitágoras. Isso sim, uma coisa útil, porque nunca sabemos quando temos de medir uma corda de rappell que sai de um prédio qualquer até ao chão. Bastava olhar para o braço lá com a hipotenusa tatuada e montava-se alto desporto radical com a corda num comprimento bom e com a segurança adequada. Podia era haver grande stress nas aulas porque a tatuagem podia ser considerada copianço. Depois vinha o professor obrigar o aluno a fazer os exames de casaco comprido e com várias camadas de roupa grossa para ele não poder olhar para os braços durante o exame. Mesmo que o exame fosse num dia de muito calor!
Deve ser frustrante para os tatuadores terem de fazer estas tatuagens com os símbolos de infinito. São capazes de desenhar umas capelas sistinas nas costas de alguém e desviar o desenho dos sinais, mas acabam o dia a tatuar um 8 deitado num pulso. É como se um samurai que domine a espada tivesse de ganhar a vida a cortar picanha fininha num rodízio.
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